Posts tagged Restauração da Mata Atlântica

Florestas de Uso Múltiplo

Uma proposta inovadora de produção florestal, aliando preservação ambiental com uso econômico, foi desenvolvida pelo pesquisador Guenji Yamazoe e está sendo aplicada em algumas propriedades rurais no estado de São Paulo.

Trata-se das “florestas de uso múltiplo”. Por este modelo de reflorestamento, investe-se na diversificação de produtos, em busca de um manejo sustentável da área produtiva. Para o produtor rural, que necessita do retorno econômico, o modelo também pode ser adotado em áreas de reserva legal, para posterior exploração comercial. A idéia é que o produtor obtenha retorno econômico já durante a fase de crescimento da floresta, primeiro com a intercalação de cultivos anuais (algodão e amendoim, por exemplo), depois com frutas e finalmente com extração de madeira, com cada um destes grupos sendo plantado dentro de uma faixa, obedecendo a critérios ecológicos e econômicos.

Convém lembrar que a lógica de manejo florestal que embasa a proposta da floresta de uso múltiplo é a mesma lógica que é aplicada há centenas de anos pelas administrações florestais em países como Japão e Alemanha.

A curto prazo, em quatro a cinco anos, já haverá produção de frutos com potencial econômico, como araçá, uvaia, cambuci, cabeludinha, grumixama, etc., além de sementes de espécies pioneiras, que têm crescimento rápido e vida curta. A médio prazo, ou seja em 10 – 15 anos, o produtor também obterá rentabilidade com a extração de madeira branca, como guapuruvu, tamboril e caixeta, além da produção de palmito juçara, cujos frutos podem ser aproveitados para a produção de alimento. A longo prazo, em 30 anos, já haverá a possibilidade de produzir madeira nobre de alto valor comercial, como jatobá, jequitibá e guanandi.

A sociedade brasileira e mundial não pode mais perder tempo com lamentações sobre o desmatamento. É necessário investir no replantio de árvores nativas. Se isto for feito seguindo alguns critérios, fornecerá um ótimo retorno econômico. Após os investimentos iniciais e depois que a floresta estiver em pé, bastará manejá-la de forma sustentado (ou seja, não retirando mais do que aquilo que é produzido anualmente) para obter-se uma rentabilidade regular e sem prazo para acabar, como os juros de uma aplicação financeira.

“Matas nativas” está buscando parceiros interessados em adotar este sistema em grande escala, e pensamos nas áreas de reserva legal de um empreendimento rural de grande porte (setor de produção de álcool, café, celulose, por exemplo).

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Arborização defensiva em Porto Alegre

Porto Alegre é uma cidade em acelerado processo de deterioração urbanística. Os planos diretores têm fomentado a construção desordenada de prédios nos bairros tradicionais da Zona Norte, o que implica em perda de cobertura vegetal e aumento do tráfego de veículos, elevando os níveis de poluição do ar e sonora. Por outro lado, a Zona Sul, bucólica e rural até a década passada, vem recebendo parte da população tradicional da Zona Norte que, procurando escapar à deterioração ambiental nos seus bairros de origem, estabelece-se nos novos condomínios horizontais que se espalham pela região. Assim, sua cobertura vegetal também vai desaparecendo, causando uma deterioração da qualidade ambiental e de vida.

Em 2000, iniciamos o plantio de árvores num terreno localizado no Bairro Campo Novo, Zona Sul de Porto Alegre. O objetivo deste programa de arborização era o de neutralizar localmente os impactos da progressiva urbanização do entorno, que implicava num aumento da temperatura do ar e das poeiras em suspensão, bem como na diminuição da privacidade dos moradores. De forma mais geral, o objetivo desta iniciativa também foi o de comprovar que é perfeitamente possível florestar uma área com espécies nativas em plantios mistos.

Uma parte do terreno é formada por um aterro, mas mesmo assim o desenvolvimento das mudas tem sido satisfatório. Plantamos mais de 30 espécies nativas, entre as quais araucária, corticeira, ipê-roxo, marmelinho, paineira, canafístula, timbaúva, imbuia, angico, cabriúva, figueira, leiteiro, rabo-de-macaco, pau-alazão, cedro, araçá, cerejeira.
Marmelinho
A semente deste marmelinho ou caqui-do-mato (Diospyrus inconstans) foi coletada em 1996 em Nova Prata e a muda foi plantada no local em 2001. A primeira frutificação foi em abril de 2008, e atualmente a árvore está com uma altura de cerca de 6m. Planta rara, de pequeno porte quando adulta (até 9m de altura), de grande potencial paisagístico para pequenos espaços. Os frutos são comestíveis e avidamente procurados pela avifauna. Já há mudas disponíveis para comercialização.

Pau-alazão, Sapiranga
Este pau-alazão, também conhecido por araçá-piranga ou sapiranga (Eugenia multicostata), é uma das jóias da propriedade. A semente foi coletada em dezembro de 1999 nas fraldas da Serra Geral em São Francisco de Paula. A muda foi plantada no local em 2003, e atualmente está com uma altura de cerca de 2m. A fruta tem sabor muito agradável e pode ser consumida ao natural, ou ainda sob a forma de sucos, geléias e sorvetes. Consta que sua área de ocorrência natural é reduzida, na parte da Mata Atlântica que vai do sul de SP ao norte do RS (gradiente latitudinal de cerca de 800km). A madeira é excelente e resistente à umidade, sendo este um dos motivos que levou a espécie à quase extinção em seu habitat natural.

AraucariaEste pinheiro (Araucaria angustifolia) foi plantado em 2001 e atualmente está com cerca de 6m de altura. Apesar de não se recomendar mais seu plantio em Porto Alegre, em decorrência do aquecimento global previsto, os exemplares plantados neste terreno têm crescido de forma vigorosa. Talvez a explicação esteja no fato de o entorno (ainda) ser bastante aberto, sem grandes edificações, com geadas relativamente freqüentes no inverno.

Outra parte do terreno era composta por um banhado com vegetação de maricás. Nesta área, promovemos um enriquecimento com o plantio de espécies apropriadas para estes ambientes, como baguaçu, ingá, canela-nhoçara, palmiteiro, corticeira-do-banhado.
Baguaçu
Este baguaçu (Talauma ovata) foi plantado em 2006 e atualmente está com uma altura de cerca de 2m.

CabriúvaEsta cabriúva (Myrocarpus frondosus) foi plantada em 2001 na área do banhado e atualmente está com cerca de 12m de altura. A explicação para seu rápido crescimento pode estar no fato de estar localizada sobre uma elevação formada por matéria orgânica (folhas) decompostas e/ou pelo fato de a cobertura de maricás ter induzido seu crescimento em altura. Vale ressaltar que esta espécie consta na lista de espécies ameaçadas do estado do RS.

Os quase 10 anos de acompanhamento da área possibilitaram que fossem feitas muitas observações interessantes.

A mais notável delas diz respeito às mudanças climáticas: as estiagens de 2004/2005 representaram um ponto de mutação para o banhado. Originalmente a área era de difícil acesso, pois a vegetação arbórea era composta pelos espinhentos maricás em diferentes estágios sucessionais. O solo estava recoberto por gravatás, e só se conseguia circular pela área em botas de borracha, uma vez que esta estava permanentemente alagada.

Desde 2006 é possível circular pelo local com calçados comuns. Em substituição aos gravatás, que desapareceram por completo, começou a estabelecer-se uma vigorosa regeneração composta por amoreiras, capororocas, pitangueiras, aroeiras e canela-da-índia, além dos maricás. Agora acabamos de registrar a primeira muda de canafístula, espécie muito utilizada na arborização urbana de Porto Alegre.

Canafístula
Esta canafístula (Peltophorum dubium) foi o primeira exemplar desta espécie registrado na área que foi um banhado até 2004/2005.

É interessante notar que a amoreira e a canela-da-índia são espécies exóticas, que parecem ter caído no gosto da avifauna local. São espécies comuns na cidade. Contudo, no ex-banhado respondem por pelo menos 30% da regeneração atual, e esta obviamente não é sua participação na arborização da cidade. Assim, sua alta taxa de regeneração é um enigma a ser decifrado pelos especialistas no assunto.

Outra observação relevante diz respeito à taxa de crescimento das mudas. Levadas a campo, muitas espécies parecem engatar uma “marcha lenta” até “acostumarem-se” às condições do local. Podem levar anos até começarem a apresentar um crescimento mais vigoroso. Este comportamento foi registrado em mudas de angico, imbuia, cerejeira, cedro, pau-alazão, rabo-de-macaco. Já espécies como paineira, timbaúva, araucária, ingá, canela-nhoçara, guabiju, ipê-roxo, guapuruvu, pau-ferro, canafístula, guabiroba, figueira, corticeira, baguaçu, palmiteiro apresentaram um crescimento mais uniforme, aparentando não terem levado um “choque” ao serem plantadas no local. Muitas destas espécies apresentaram comportamento similar quando plantadas em Gramado e em São Paulo (ver os posts correspondentes).

Em 2007, resolvemos aplicar uma dose de adubo químico (N-P-K) em algumas das mudas de espécies mais raras. E, de fato, em 1-2 anos espécies como o baguaçu, o pau-alazão e a imbuia praticamente dobraram de tamanho.

Outra conclusão notável refere-se ao crescimento das espécies nativas em comparação às espécies exóticas. Plantamos algumas espécies exóticas no local, como Pinus sp, Araucaria columnaris, canela-da-índia e Gingko biloba. O tratamento por ocasião do plantio foi o mesmo para todas, com abertura de covas de 50-60cm de profundidade e preenchimento com matéria orgânica (resíduos de alimentos, estrume, terra vegetal). A taxa de crescimento destas espécies não apresentou diferença perceptível em relação à taxa de crescimento das espécies nativas. O exemplar de Pinus sp inclusive apresenta, hoje, um porte menor do que algumas espécies nativas plantadas na mesma época, como cabriúva, paineira e ipê-roxo, e mesmo do que espécies plantadas um ano mais tarde, como pau-ferro e canafístula. Assim, a nossa hipótese é a de que espécies nativas brasileiras têm um potencial de crescimento similar ao das espécies exóticas hoje largamente utilizadas na silvicultura, caso sejam plantadas em povoamentos mistos (para diminuir a probabilidade de ocorrência de pragas e doenças) e recebam os mesmos tratos culturais (adubação, por exemplo).

PinusEste Pinus foi plantado em 2001 e atualmente está com uma altura de cerca de 5m. Talvez não tenha se adaptado à concorrência com os maricás. Seu crescimento foi muito inferior ao da cabriúva, plantada na mesma época e mostrada acima.

Outra aprendizagem relaciona-se à taxa de crescimento de mudas da mesma espécie quando plantadas em ambientes diferentes. Plantamos uma corticeira na área de banhado, sob o dossel de maricás, e outra corticeira na área aterrada, sob sol pleno. Contrariando nossas expectativas, o desenvolvimento da muda plantada na área aterrada foi muito mais vigoroso do que o da muda plantada no banhado.

Corticeira - BanhadoEsta corticeira-do-banhado (Erythrina crista-galli) foi plantada em 2002 e atualmente está com uma altura de cerca de 1,50m. Pelo visto, não se desenvolve bem sob dossel arbóreo.

Corticeira - AterroEsta corticeira-do-banhado (Erythrina crista-galli) foi plantada em 2005 e atualmente está com uma altura de 3m. A espécie adaptou-se muito melhor a um ambiente mais seco, a sol pleno, do que ao ambiente sombreado e úmido do banhado.

Um aspecto que merece ser registrado é o de que o índice de perda das mudas foi de cerca de 15%.

Com a fase de plantio de mudas praticamente concluída e tendo os objetivos iniciais sido alcançados, é chegada a hora de pensar em como conduzir o manejo florestal da área. Uma pergunta em aberto é o que fazer com a regeneração natural na área do que foi o banhado; na área aterrada, a regeneração praticamente não ocorre devido à criação de galinhas de forma “ecológica”.

Como a idéia é a de que o terreno tenha uma vegetação arbórea do tipo “parque”, também não se quer um adensamento muito intenso da vegetação, que impeça a livre circulação pela área. Também é dada prioridade a espécies que não sejam muito comuns, pois a idéia é a de aumentar o valor da propriedade pela existência de espécies mais raras, cujas sementes ou mudas possam vir a ser comercializadas por um preço compensador. Nesse sentido, é possível que um ou outro exemplar de espécies mais comuns seja suprimido para dar lugar ao plantio de alguma espécie mais rara ou ameaçada de extinção. Nas condições atuais, esta estratégia parece interessante, uma vez que espécies mais exigentes já podem contar com luz filtrada, umidade do ar e matéria orgânica (folhas e esterco de galinha) na superfície do solo.

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Recuperação das margens do Córrego Tremembé

Grandes cidades brasileiras como São Paulo são exemplos claros da falta de planejamento ambiental.  O desrespeito inclusive à legislação existente, como ao Código Florestal, que prevê que a vegetação ciliar dos cursos d’água deve ser preservada ou recuperada, invariavelmente leva a episódios trágicos como os que estamos vendo no Vale do Itajaí, em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro… Isto significa que o poder público terá que partir para políticas públicas consistentes de recuperação da qualidade ambiental nas megalópoles brasileiras. Enquanto este dia não chega, estamos testando algumas metodologias visando à sua utilização futura em grande escala.

Uma das nossas áreas experimentais fica às margens do Córrego Tremembé, na Zona Norte de São Paulo. Dentre as espécies utilizadas para a recuperação ambiental do local estão corticeira da serra (foto), pitangueira, angico, araucária, ipê amarelo e guapuruvu.

Caso o objetivo da recuperação de uma área degradada preveja sua utilização para fins turísticos, é recomendada a utilização de técnicas mais sofisticadas.

Corticeira

Plantamos esta corticeira-da-serra em setembro de 2008.

Em tempo: segundo dados do INPE, a Região Metropolitana de São Paulo foi a campeã dos desmatamentos entre as regiões metropolitanas brasileiras. De 2005 a 2008, foram suprimidos 437ha de vegetação.

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A solução para a reserva legal

O decreto 6.686, publicado em 11 de dezembro de 2008 no “Diário Oficial da União”, garantiu aos proprietários rurais o prazo de um ano para averbação de reserva legal. Como a questão tem gerado polêmica,  convém lembrar que um dos objetivos dessa legislação, entre vários, é o de evitar prejuízos como os que recentemente foram registrados na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

Além disso, há metodologias de implantação de florestas tecnicamente mais sofisticadas que permitem que essas áreas produzam alimentos (sim, uma floresta também pode produzir alimentos, se o seu “design” levar esse aspecto em consideração), além de vários tipos de madeiras e de diversos outros subprodutos, alguns inclusive com alto valor de mercado.

Basicamente, a ideia destas metodologias é a de reconstruir uma floresta nativa levando em consideração seu futuro uso econômico, por meio da exploração seletiva. Trabalha-se com uma alta diversidade de espécies, inclusive com algumas mais raras e ameaçadas de extinção. É um sistema que atende aos preceitos ambientais, econômicos e inclusive sociais, uma vez que seu manejo é complexo e, portanto, requer mão-de-obra qualificada e permanente. Assim, sua implementação contribui tanto para o atendimento à legislação quanto para a diversificação da produção e para a criação de novas oportunidades econômicas na área rural.

“Matas Nativas” está à disposição para prestar consultoria/assessoria aos proprietários rurais interessados em recuperar a reserva legal de suas propriedades usando técnicas de manejo florestal que tragam bons retornos econômicos.

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