O impacto da construção de uma nova edificação na qualidade do espaço público

Estamos publicando parecer do professor Douglas Vieira Aguiar sobre mais um corte de árvores a ser realizado em Porto Alegre. Interessante observar o contraponto a argumentos por muito tempo utilizados pela administração pública, como o “aproveitamento da infra-estrutura existente” e a “ajuda aos pobres”. De forma geral, o raciocínio que embasa o parecer é semelhante ao aplicado em cidades de países mais estruturados do que o Brasil, aonde não imperam o “progresso acima de tudo” e o imediatismo. Características que, aliás, trarão um alto custo para a sociedade brasileira.

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Objeto do parecer: Avaliação do impacto de uma edificação a ser construída na rua Avaí nº 100 – área central da cidade de Porto Alegre – sobre a qualidade do espaço público a ela circundante.

Parecer: Produzo esse parecer por solicitação de um conjunto de entidades, associações e organizações não-governamentais que inclui a AGAPAN/Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural e a Associação dos Moradores da Rua 24 de Maio, entidades interessadas na preservação de um grupo de árvores destinado a corte em razão da construção de uma nova edificação a ser localizada na rua Avaí. Tendo examinado o material constante do proc. IC nº006/2013, em andamento no Ministério Público Estadual,  e tendo visitado o local entendo que:

 

  1. A nova edificação impacta seu entorno imediato de diferentes modos, dependendo do ponto de vista que tomarmos como usuários do espaço público. Pretendo, tendo esse aspecto em conta, avaliar no que segue o problema do corte das árvores dentro de um contexto ampliado que compreende a avaliação da totalidade do espaço público a ser afetado pela edificação projetada tendo em conta, naturalmente, as características dessa mesma edificação.   
  2. Desde o ponto de vista da Avenida Loureiro da Silva para onde a edificação volta sua fachada principal o impacto é bastante positivo. Essa avenida é um espaço urbano em formação e a nova edificação contribuirá positivamente para a constituição arquitetônica daquele lugar, pelo porte das edificações projetadas – um edifício de salas comerciais e um edifício de apart-hotel dispostos lado a lado – e também pela vitalidade urbana a ser ali produzida em decorrência da presença dessa nova população de usuários, recém chegados ao local. Portanto, em tese, a chegada desse empreendimento àquela parte da cidade é muito bem vinda.
  3. Ainda desde o ponto de vista da Avenida Loureiro da Silva, a generosa largura reservada à calçada frontal aos novos edifícios evidencia uma preocupação do projeto com a promoção da vida pública urbana e, em especial, com o percurso do pedestre, o que também vejo como bastante positivo.
  4. Já desde o ponto de vista da rua Avaí e portanto, desde o ponto de vista do bairro, o bairro Centro, não se pode dizer o mesmo. Ao contrário, desde o ponto de vista da rua Avaí e do bairro o modo como a nova edificação se apresenta é desastroso. Para ali se volta o bloco de estacionamento do empreendimento, desenvolvido em quatro pavimentos, e que cria no pavimento térreo, no nível da calçada, ao longo de 70 metros, uma situação de fundos, de parede cega que, conforme sabe-se, será, especialmente no período noturno, palco de tudo aquilo de ruim que a vida humana urbana pode oferecer à rua ou seja, camisinha, seringa, cachimbinho de crack, além da função natural de banheiro público a céu aberto. Esse é o cenário antevisto para a rua Avaí ao longo daquele trecho de muros cegos, sem olhos para a calçada. 
  5. A implantação proposta no projeto cria ainda, também no nível do térreo, uma ‘passagem para pedestres’ ligando a rua Avaí à alça de acesso ao viaduto Dona Leopoldina. Vejo também essa situação como desaconselhável. A dita passagem para pedestres, pelo modo como está proposta, é ladeada em toda a sua extensão por paredes cegas, por um lado as paredes cegas do estacionamento projetado e, por outro lado, as paredes cegas laterais da edificação vizinha existente. Portanto o que teremos de fato, ao invés da pretendida ‘passagem para pedestres’, é um fétido beco contendo, novamente, tudo aquilo de ruim que a vida humana urbana pode oferecer à rua, conforme discriminado acima. Sugiro, em nome do bem publico, a eliminação dessa passagem para pedestres no projeto a ser revisado.
  6. O posicionamento do bloco de estacionamentos, voltado para a rua Avaí, acontece à custa do corte de um grupo de árvores, que o acaso urbano fez com que a cidade preservasse até nossos dias. Essa intenção – o pleito do corte dessas árvores – é, a meu parecer, motivo de perplexidade, desde um ponto de vista disciplinar, desde o ponto de vista da arquitetura e do urbanismo. Muitos anos são necessários para que uma árvore cresça. Temos ali uma bela coleção de árvores urbanas – jacarandás, tipuanas, etc – em uma posição privilegiadíssima de interface entre o bairro e uma autopista, a Av. Loureiro. É surpreendente, nesse contexto, que o projeto abra mão desse patrimônio natural na mediação que estabelece com a cidade. Especialmente se considerarmos que o empreendimento vai abrir mão desse imenso patrimônio natural para a construção de um bloco de estacionamentos. Esse grupo de árvores deve, a meu parecer, ser inteiramente preservado.   
  7. Há que ter em conta ainda, na avaliação da solução de estacionamento adotada, que o edifício imediatamente vizinho ao edifício projetado apresenta, de modo exemplar, o posicionamento dos estacionamentos no corpo da edificação, em altura, como um pavimento. Outros edifícios ao longo da Av. Loureiro da Silva adotam essa mesma solução dadas as limitações daquela situação urbana. Não há portanto como justificar o corte das árvores tendo com o argumento da impossibilidade de reposicionamento do estacionamento.
  8. Interessante notar que o desprezo, por parte do projeto, pela rua Avaí/árvores – que são entendidos como situações secundárias, de fundos, subalternas – e a opção pela Av. Loureiro da Silva como frente dos edifícios projetados, fachada principal, é uma decisão de projeto no mínimo polemica, senão criticável, desde o ponto de vista da orientação solar e do ruído a afetar as habitações do apart-hotel e as salas comerciais projetadas.  Apartamentos e salas comerciais estarão voltados para o lado sul, condição extremamente desfavorecida em termos de insolação e do bem estar daí decorrente, especialmente na nossa condição de inverno. Esses mesmos imóveis sofrerão, em paralelo, o nível de ruído e poluição intensos que caracterizam a autopista. Dai resultará, certamente, o fechamento permanente das janelas e o uso permanente do ar condicionado. Tudo na mão contrária do conceito contemporâneo de sustentabilidade. Na mão contrária a fachada de fundos volta-se para o norte, para a rua Avaí e, por ironia, para o grupo de árvores a serem cortadas, que hoje compõem um espaço aberto aquinhoado simultaneamente pelos benefícios da insolação de norte e por uma arborização encantadora ou seja, uma situação absolutamente ideal em termos de qualificação do espaço público. O lado do bairro, da rua Avaí, das árvores, é, afora tudo o mais, também o lado silencioso. Parece ter havido aí, nesse aspecto, por parte do projeto, um desprezo às condições de habitabilidade em favor da conveniência de representação de imagem inerente à visualização do edifício desde a avenida.    
  9. É meu parecer, em conclusão, que, ao invés de desconsiderar ostensivamente a rua Avaí e as árvores existentes no terreno, o projeto deva  ser revisado passando a considerar esses elementos – rua Avaí e grupo de árvores – não mais como entraves a serem superados mas sim como oportunidades arquitetônicas a serem exploradas a seu favor na tarefa de buscar uma articulação proveitosa da edificação projetada com seu entorno imediato, incluído aí o bairro que lhe é limítrofe.

 

Findos os comentários e sugestões, esse é o parecer.

 

Em 30 de abril de 2013

 

 

Prof. Douglas Aguiar

UFRGS Faculdade de Arquitetura

douglasaguiar@ufrgs.br    

3 Respostas so far »

  1. 1

    eduardo galvão said,

    Parabéns Douglas, irretocável parecer. Já comentei o dito projeto semestre passado, quando uma estudante propõs uma alternativa no mesmo terreno, considerando a animação da Avaí como uma premissa importante, e demosntrando que sim é possível fazer uma arquitetura de inclusão e fomento urbano.

  2. 2

    silvia correa said,

    Será uma atitude exemplar se uma incorporadora repensar os seus conceitos de qualidade por uma visão mais ampla de toda a problemática que envolve a inserção de uma edificação no contexto urbano, num momento em que ainda é possível intervir.

  3. 3

    Lygia Saboia Carneiro Leão said,

    Foram derrubadas, por uma incorporadora local, dezenas de belos e antigos espécimes de árvores no terreno antes chamado de “estacionamento dos Caixeiros Viajantes”, sito na confluência das Ruas Pe. Schoeler com Mostardeiros.
    A obra, destinada a um edifício comercial de quinze andares, está parada, sem operários trabalhando, o que leva a crer que o espaço citado não deve ter obtido o aval das autoridades competentes para a finalidade a que se destina.
    Acho que é um exemplo de afronta à natureza, antes tão linda aos olhos e tão verdejante como vegetação!
    Sou leiga, esta é uma opinião de quem viu com emoção a retirada de tantas e tantas árvores que enchiam de pássaros canoros o pátio do Clube, e que tanto alegravam o recanto com seus trinados e movimentos, tendo como pano de fundo um pequeno e deslumbrante arvoredo que formava um belo parque, um descanso para os olhos de uma parte tão congestionada pelo trânsito de uma cidade cada vez mais hostíl!


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