A questão é verde, vermelha ou azul?

Em 24 de outubro, o “Estado de São Paulo” publicou excelente artigo do prof. emérito da FFLCH-USP José de Souza Martins. Como não o encontramos em forma digital, resolvemos colocá-lo em nosso blog para que eventuais interessados possam acessá-lo.

A QUESTÃO É VERDE, VERMELHA OU AZUL?

O jardim botânico de Cubatão e nosso falso cromatismo político

Um dos grandes complicadores dos problemas sociais no Brasil ganhou nova dimensão com a surpreendente votação de Marina Silva e do Partido Verde no primeiro turno da eleiçãp presidencial. Marina Silva não será desta vez presidente da República, mas foi vitoriosa ao viabilizar o destaque da questão ambiental na agenda politica do país e dar visibilidade ao ambientalismo como sujeito politico, no elenco dos novos sujeitos que as eleições revelaram. O que inclui igrejas evangélicas com seu crescente e poderoso número de conversos e suas peculiaridades políticas e ideológicas. O Brasil se vê em face de uma diversificação de sua consciência social e dos valores de referência no comportamento eleitoral de sua população, com a consequente ampliação do elenco de demandas de direitos sociais e até mesmo de direitos politicos.

A improvisada corrida dos candidatos remanescentes na disputa eleitoral do segundo turno ao menu ambientalista é demonstração de quanto os dois principais partidos da Nova República, o PSDB e o PT, tem estado desatentos às mudanças políticas aceleradas que vem ocorrendo na sociedade brasileira e ao novo perfil do decisivo eleitor. Os nossos partidos politicos majoritários não se atualizaram no grau e no ritmo das mudanças que eles mesmos viabilizaram no poder.

Os impasses são bem diferentes dos destacados no simplismo da polarização que nesta eleição perigosamente nos dividiu num Brasil vermelho e dos pobres e num Brasil azul dos ricos. Mistificação e falcatrua ideológicas que não confessam conveniências dos ricos do Brasil vermelho nem as urgências dos pobres do Brasil azul. Na convergência e ao mesmo tempo no desencontro da questão social e da questão ambiental é que temos um bom indicador de quanto esse cromatismo revela-se falso e esconde uma poderosa contradição cujo escamoteamento, tudo indica, terá que chegar ao fim. Não há como continuar escalonando precedências em nome dessa falsa polarização sem graves consequências para o país inteiro. A questão social tem solução; a questão ambiental não a tem se as medidas de urgencia tardarem.

Em princípio, as aparentemente antagônicas soluções para as questões social e ambiental contrapõem necessidades e demandas circunscritas e locais, de um lado, e necessidades propriamente sociais e nacionais, de outro. A insurgência autodefensiva de grupos locais em questões como essa, é problema que facilita e propicia a manipulação política, o engodo oportunista e as soluções precárias sem que de fato seja resolvido. É questão que exige competência e coragem políticas, porque os pequenos grupos e suas demandas localizadas e legítimas também se tornaram sujeitos do processo politico.

A dificuldade vem se propondo, e agravou-se nestes meses de embate eleitoral, no conflito que envolve a efetivação do projeto de criação do Jardim Botânico da Serra do Mar, pelo governo do Estado de São Paulo, e os interesses das cerca de 1.800 famílias de moradores do bairro da Água Fria, em Cubatão. No plano mais amplo, é o conflito entre a consolidação do Parque Florestal da Serra do Mar, de uma parte, e os chamados bairros-cota constituídos da população que se instalou em diferentes níveis da serra. O problema é bem antigo e é expressão das sequelas da construção da Via Anchieta, inaugurada em 1949, pelo governador Adhemar de Barros. A obra atraiu grande número de migrantes, majoritariamente nordestinos e mineiros, que após sua conclusão permaneceram em favelas e aglomerações precárias ao longo da rodovia, do ABC à Baixada Santista.

O advento da consciência ambiental e o reconhecimento dos imensos danos sociais da ocupação imprópria das areas das nascentes de água na Serra acabaram impondo medidas de correção dos problemas e de reconstituição do ambiente numa perspectiva mais ampla, de urgencia e de largo prazo. Curiosamente, aí contrapõem-se a medida corajosa e necessária de restauração ambiental e o compreensível inconformismo dos atingidos, vítimas também. A disputa tornou-se um embate ideológico e partidário, que tem muito de artificial apesar das emoções que esses casos despertam. Há um ano e meio, o site da administração petista da Prefeitura de Cubatão reconhecia a relevância social, como medida de longo prazo, da remoção da população que ocupava indevidamente as areas indicadas. Agora, apóia incondicionalmente a permanência dos moradores com base na precaríssima suposição de que eles próprios possam se tornar zeladores da reserva. Coisa que não conseguiram quando novos moradores a eles se juntaram com a construção da Rodovia dos Imigrantes.

De qualquer modo, a ampla e complicada revisão da postura dos governos em relação às demandas dos pequenos grupos, em face do que interessa ao país inteiro, apenas abre uma agenda de confrontos que dependerá de políticos com envergadura de estadistas. Orientações populistas só complicarão ainda mais a questão ambiental.

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