Enriquecimento de mata degradada em Gramado

O município de Gramado/RS faz parte da formação “Floresta Ombrófila Mista”, uma das formações do grande bioma “Mata Atlântica”, que se estende pela costa brasileira. Esta formação caracteriza-se pela presença dos dois únicos pinheiros nativos brasileiros, Araucaria angustifolia e Podocarpus lambertii.

Esta formação vegetal está seriamente ameaçada de extinção, já que existem pouquíssimas áreas protegidas (“unidades de conservação” ou UC’s) pelo poder público. Além disso, a existência de legislação como o Código Florestal não inibiu o desaparecimento desta formação nas propriedades particulares.

Estamos plantando mudas de diversas espécies arbóreas representativas desta formação no parque do Hotel Serrano, em Gramado. Aproveitando o bom microclima proporcionado por algumas árvores de espécies mais comuns e remanescentes da mata original, como canelas e carrapichos, estamos plantando espécies mais valiosas por sua raridade ou valor comercial, como cedro, cangerana, pau-alazão, goiabeira-da-serra, angico-da-serra, louro, pau-marfim, dentre muitas outras.

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Esta Araucária (Araqucaria angustifolia), que atualmente está com uma altura de cerca de 10m, foi a primeira árvore que plantamos no parque, em 1995. A árvore-mãe, em Porto Alegre, foi derrubada no fim dos anos 90 para dar lugar à construção de um prédio. Desta forma, pelo menos conseguimos preservar seu patrimônio genético. Programas de restauração da Mata de Araucária são urgentes, uma vez que atualmente nem a regeneração natural das espécies desta formação é fomentada.

Este pinheiro-bravo (Podocarpus lambertii) foi plantado em 2002 e atualmente está com cerca de 4m de altura.

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Esta corticeira-da-serra (Erythrina falcata) foi plantada em 2003 e atualmente está com cerca de 3m de altura.

Estas três espécies estão entre as que, até agora, apresentaram os melhores índices de crescimento.

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A semente deste angico-da-serra (Albizia polycephala) foi coletada em Nova Prata, e a muda foi plantada em Gramado em 2001. Atualmente está com cerca de 8m de altura.

DSC01413Após 11 anos prestando serviços como árvore de natal em um vaso, esta Araucária (Araucaria angustifolia) foi plantada em julho de 2009 tendo 59cm de altura, medidos da base até a ponta do broto apical. Por ocasião do transplante, podamos os galhos inferiores e realizamos uma trabalhosa cirurgia radicular, uma vez que a parte inferior da raiz estava muito enovelada. Esperamos que nossa árvore de natal não tenha se acostumado em demasia à vida como bonsai! Acompanharemos seu crescimento muito de perto e mediremos sua altura anualmente, para ver se ela “recupera o tempo perdido”…

A “ÁRVORE DE GRAMADO”

Turistas que circulam pela área central da cidade no outono impressionam-se com a “árvore de Gramado”. Que espécie é esta?

Acer

Trata-se da espécie Acer palmatum, originária do sudeste asiático. Seu efeito paisagístico é notável; contudo, numa formação considerada como ameaçada de extinção, o poder público deveria repensar sua política de arborização com espécies exóticas. É questão de tempo até que seja ajuizada uma ação popular ou uma ação civil pública questionando a utilização destas espécies. Assim, recomendamos que a região implemente uma política de gestão da biodiversidade vegetal nativa, até porque a silvicultura com espécies exóticas como acácia-negra, eucaliptus e pinus também é bastante pronunciada na zona rural do município. Um começo seria a arborização das estradas rurais do município com Araucárias, Pinheiros-bravos e Corticeiras-da-serra!

Aliás, convém ressaltar que um dos pilares da economia da região é a indústria moveleira. Por outro lado, a matéria-prima hoje utilizada para a fabricação de móveis de luxo vem da região amazônica. Como o desmatamento na Amazônia terá que ser coibido, é possível que no futuro esta fonte de matéria-prima não esteja mais disponível. Portanto, é aconselhável que os produtores rurais comecem a cultivar as espécies nobres originalmente existentes na região desde já, com vistas a suprir a futura demanda por estas madeiras. Dentre as espécies que estamos plantando e que podem ser utilizadas para esta finalidade, estão o Angico, a Cangerana, o Cedro, o Louro, o Pau-alazão e o Pau-marfim, entre outras.

17 Respostas so far »

  1. 1

    Janete said,

    Que báarbaro!
    Parabéns pelo valioso plantio!

  2. 2

    Ricardo said,

    Muito legal seu blog, vou linkar ao meu, que trata do reflorestamento de matas ciliares, posso?
    Abs
    Ricardo

    • 3

      matasnativas said,

      Claro que pode, Ricardo. Faz tempo que penso em fazer um link ao teu blog e ao do “Árvores de São Paulo”, mas ainda estou em dúvida sobre se cito algum texto específico, como costumo fazer nos meus posts, ou se desenvolvo o índice de “páginas relacionadas”.

  3. 4

    gustavo said,

    olá, muito bom post.
    mas a espécie que você diz ser acer palmatum sobre a foto não é verdade. essa é a foto de um liquidambar styraciflua (sweet gum em ingles). Realmente existem muitos bordos japoneses na cidade, mas bastante liquidambar também (é muito mais robusto e de maior porte). as folhas do liquidambar são maiores que as do acer palmatum, mas ambas têm 5 pontas, em geral.
    com certeza é preciso incentivar o plantio de árvores nativas como araucarias e pinheiros bravos, mas não podemos esquecer o aspecto turístico da região, em parte devido às belas cores outonais das árvores. ademais, acer palmatum e liquidambar não se reproduzem sozinhas e não são um risco de espécie invasora nas nossas matas nativas. por isso não sou contra o plantio dessas espécies no centro turístico de Gramado.
    abraço

    • 5

      matasnativas said,

      Olá, Gustavo!

      Agradecemos pela dica e vamos tentar confirmar a informação. É possível, pois a espécie realmente parece ter um fenótipo diferente do Acer palmatum.

      A questão do plantio de espécies exóticas é complexa. Em primeiro lugar, questiona-se a utilização de espécies exóticas porque é uma simples imitação de outros ambientes, como a Europa e a América do Norte. A Araucária, a Corticeira-da-Serra e outras espécies nativas também têm grande apelo paisagístico – se não forem incentivadas aqui, o serão na Europa e na América do Norte? Mesmo que este fosse o caso, isto não parece fazer sentido do ponto-de-vista biológico. Em segundo lugar, uma espécie exótica ocupa o lugar que poderia ser ocupado com uma espécie nativa e, mais importante ainda, por uma espécie nativa rara ou ameaçada de extinção. Em terceiro lugar, temos o problema da imitação – em São Francisco de Paula a arborização urbana aparentemente também está sendo feita com o Acer, a Rota Romântica foi arborizada com plátanos, e assim por diante. Ocasionalmente também temos plantado Liquidambar, Acer, Gingko biloba e Araucaria bidwilii, mas acreditamos que estas espécies só deveriam ser utilizadas em casos especiais.

  4. 6

    Paulo Cesar said,

    Olá, concordo em parte com vc, porém não devemos desprezar ou simplesmente cortar uma espécie exótica tão bonita como os Acers palmatum e outras espécies exóticas!

    • 7

      matasnativas said,

      Olá, Paulo César!

      A discussão de espécies nativas versus espécies exóticas é complexa para quem não é do ramo, exigindo um entendimento mais aprofundado das questões ambientais atuais. De qualquer forma, temos a convicção de que municípios que tiverem uma política de arborização baseada na biodiversidade local, entre outros atrativos, certamente destacar-se-ão inclusive como pólos turísticos.

  5. 8

    bruno said,

    A Araucaria do vaso cresceu?

  6. 10

    Monica Ventura said,

    Gostaria de comprar mudas de araucarias para plantar em minha casa e num sitio em Rio Brilhante(MS), visto que o clima propicia, pois em media temos de 3 a 6 geadas por ano, havendo casos de anos mais frios que superam esse numero. Este ano (2011) tivemos 4. Mas nao sei como comprar, ja encomendei da floriculturas de minha cidade, mas creio que nao tèm muita vontade em trazè-as visto que custa pouco. Poderiam me dar uma sugestao? Obrigada.

    • 11

      matasnativas said,

      Monica, se você quiser investir alguns milhares de reais, podemos levar algumas mudas em veículo até Rio Brilhante.

      Tecnicamente, o mais indicado seria você obter mudas ou sementes da região de Campo Mourão, no Paraná. Esta procedência genética é a mais “tropicalizada” e “continental” desta espécie e, portanto, seria a mais adequada para plantio em sua região.

      Outra alternativa seria a de encomendar um lote de sementes e você mesma cultivá-las em recipientes apropriados.

      Estamos à disposiçâo para detalharmos cada uma destas alternativas.

  7. 12

    Tania Regina said,

    Parabens pelo brilhante trabalho!!

  8. 13

    Vanessa de Melo said,

    Tenho dificuldade em germinar a semente da A. Angustifolia. Alguma dica? Tem que saturar em agua ou usar alguma outra tecnica antes de plantar?
    Obrigada!
    Vanessa

    • 14

      matasnativas said,

      Olá, Vanessa!

      Recomendamos deixar a semente imersa em água por uns 2 ou 3 dias e aí plantar em solo com bastante matéria orgânica (terra preta), em local sombreado e regando uma vez ao dia.

  9. 15

    Gustavo said,

    Por isso Porto Alegre é feia e a serra é bonita…natureza é tudo!

    • 16

      matasnativas said,

      Realmente, a Serra é bem mais bonita do que Porto Alegre. Mas há algumas décadas atrás, boa parte dos morros da região estava totalmente desmatada, e hoje a vegetação está em recuperação e a Serra só é “verde” porque o povo foi trabalhar na cidade e abandonou a agricultura…

  10. 17

    Francisco said,

    Essa foi a parte que mais me interessei, não que o as outras informações contidas não sejam interessantes, porém esta me chama muito a atenção, porque especies exoticas podem trazer maiores beneficios ao solo e a fauna do que algumas nativas, porem acredito que as que apresentarem risco a fauna e flora nativa, deve ser controlada e não erradicada, pois toda planta contem principios ativos,então podendo ser utilizada, não tendo então que importar o ativo, controle e planejamento para mim é o melhor caminho.

    “o poder público deveria repensar sua política de arborização com espécies exóticas.”


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