Mudanças climáticas

“Choveu num dia mais do que chove no mês inteiro”.

Ultimamente, manchetes como esta sucedem-se nos telejornais, acompanhadas pelas estimativas dos prejuízos e, eventualmente, do número de mortos. A explicação dos meteorologistas é a de que “há uma frente fria estacionária sobre a região”, ou coisa do gênero.

Infelizmente a explicação para estes eventos não é tão simples assim. Embora verdadeiras, são só uma parte da história. O desmatamento na Amazônia desequilibra os padrões de envio da umidade daquela região para o sul/sudeste. O processo funciona assim: A umidade do Oceano Atlântico entra sobre a Amazônia e a floresta vai “reciclando” esta umidade, que acaba sendo “aprisionada” na região pela Cordilheira dos Andes. Aí, no verão, as correntes de vento a levam ao sul, irrigando as regiões que mais produzem alimentos no Brasil. À medida que as árvores na Amazônia vão sendo cortadas, não cumprem mais o papel de “reciclar” a umidade, e o ciclo começa a falhar, a ficar intermitente, causando ora secas, ora enchentes. Há inclusive cientistas que atribuem as inundações de Santa Catarina e a seca na Argentina à fumaça dos incêndios florestais, que altera drasticamente o mecanismo de aproveitamento do vapor d’água da floresta amazônica.

De qualquer forma, chuvas intensas são parte do clima subtropical em que vivemos. E é por causa desse clima que surgiu a mata atlântica. Ela não é apenas decoração das paisagens do sul e sudeste brasileiros, tanto como as matas ciliares não existem apenas para enfeitar as margens de rios. A cobertura florestal natural das encostas, dos topos de morros, das margens de rios e córregos existe para proteger o solo da erosão provocada por chuvas, permite a alimentação dos lençóis d´água e a manutenção de nascentes e rios, e evita que a água da chuva provoque inundações rápidas (enxurradas).

A ocupação do solo é ordenada por leis municipais, os planos diretores urbanos. Esses planos diretores definem como as cidades crescem, que áreas vão ocupar e como se dá essa ocupação. Por falta de conhecimento ecológico dos poderes executivo, judiciário e legislativo (ou por não leva-lo em consideração), o código florestal tem sido desrespeitado pelos planos diretores em praticamente todas as cidades, sob a alegação de que o município é soberano para decidir, ou supondo que a mata é um enfeite desnecessário. Da mesma forma, as encostas têm sido ocupadas, cortadas e recortadas, à revelia das leis da Natureza.

Trata-se de uma falta de compreensão que está alicerçada na idéia, insensata, de que os terrenos devem ser remodelados para atender aos nossos projetos, em vez de adequarmos nossos projetos aos terrenos reais e à sua dinâmica natural.

A postura não é diferente nas áreas rurais, onde a fiscalização ambiental não tem sido eficiente no controle de desmatamentos e intensidade de cultivos em locais impróprios, como mostram as denúncias frequentes veiculadas nas redes que conectam ambientalistas e gestores ambientais. A irresponsabilidade se estende, portanto, para toda a sociedade.

1 Response so far »

  1. 1

    […] A destruição da Amazônia é um dos fatores que explica as “fortes chuvas”, conforme já explicitamos em nossa postagem sobre as mudanças climáticas. […]


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s