O pau-rei de Itu (Proposta para a criação do roteiro das árvores monumentais de Itu)

Itu situa-se a cerca de 100 quilômetros a oeste de São Paulo e é conhecida nacionalmente como sendo a cidade dos exageros graças ao “marketing” do comediante e ex-prefeito Simplício, falecido em 2004. A cidade foi fundada em 1610 e já foi a mais rica do estado devido às plantações de café. Diversas casas senhoriais construídas pelos “barões do café” foram restauradas e hoje fazem parte do centro histórico que é uma das atrações turísticas do município. Itu também teve grande importância no processo que conduziu à Proclamação da República no Brasil, em 1889. 

A região de Itu também está sendo atingida pelo colapso hídrico decorrente da substituição de milhões de hectares de florestas tropicais e subtropicais brasileiras por cidades, estradas, fábricas, plantações agrícolas e pecuária. O racionamento do fornecimento de água à população ituana é cada vez mais intenso devido à estiagem que assola o sudeste brasileiro desde 2013. Além de serem cada vez mais escassos, os recursos hídricos também estão extremamente poluídos. O Rio Tietê banha o município e seu nível de poluição é assustador:

Poluicao

O preço da degradação ambiental atual será cobrado no futuro. Aliás, já está sendo cobrado pela atual  escassez de água.

Portanto, quanto mais for feito hoje para reverter a degradação, menos doloroso e custoso será o futuro. Assim, propostas como a criação do roteiro das árvores gigantes são formas de esclarecer a opinião pública sobre sustentabilidade. Nos dias de hoje, tais programas são comuns e prioritários em países de primeiro mundo, que sabem que não se combate secas e enchentes apenas na base de programas assistencialistas. 

Isto posto, sugerimos à Estância Turística de Itu que invista na criação de um “roteiro das árvores grandes”. Isso certamente origina uma série de benefícios ao município:

- Agrega sustentabilidade aos destino turístico Itu, adicionando um novo e grande atrativo;

- Adiciona “monumentos naturais” (árvores gigantescas, nesse caso) aos “monumentos históricos” já existentes;

- Projeta o município a nível nacional e internacional, uma vez que o Brasil ainda não possui nada semelhante;

- Auxilia na restauração da cobertura florestal do município através da produção das sementes destas árvores.

O pau-rei (Pterygota brasiliensis) situado na Praça da Independência é uma dessas árvores monumentais e merece uma placa que indique seu nome (comum e científico), sua idade aproximada e, se possível,  o nome de quem o plantou. Seu diferencial é estar situado em pleno centro histórico:

5

Outro grande atrativos turístico de Itu é a estrada-parque ligando o município a Pirapora e daí a São Paulo. O ponto negativo dessa estrada, de grande beleza cênica, é que margeia o poluidíssimo Rio Tietê. Aqui vemos uma árvore magnífica situada numa ilha do rio, podendo-se inclusive observar a “lixeira” que há no solo e na vegetação rasteira:

Poluicao e arvore

Em todo caso, essa estrada parque possui diversas outras dessas árvores monumentais, como esse Jequitibá-rosa (Cariniana legalis):

jequitibá

Esse jequitibá é tão magnífico que justifica  inclusive o investimento em uma trilha suspensa ao redor de sua copa. Outra árvore monumental nessa estrada é um chichá (Sterculia chicha):

chicha

Também temos essa paineira (Chorisia speciosa) fotografada em plena floração:

Paineira

As árvores monumentais de Itu existem ou porque alguém as plantou ou porque a vontade humana decidiu mantê-las no local onde a natureza as erigiu. Atualmente, com o ambiente natural totalmente alterado pelo homem, não há garantias de que os fenômenos naturais se mantenham até o momento em que possam receber o título de monumentos naturais vivos. Cabe ao poder público, associado às ações cidadãs, criar formas para que os exemplares existentes continuem existindo e que novos monumentos sejam criados no momento presente, para substituir os que morrerem. Cabe a nós investir em ações preventivas para garantir às futuras gerações a possibilidade de conhecer e contemplar esses testemunhos de eras passadas. No intuito de contribuir para assegurar que essas espécies continuem a existir no futuro, ainda mais depois do genocídio ao qual foram submetidos biomas como a Mata Atlântica, “Matas Nativas” plantará voluntariamente algumas mudas dessas espécies monumentais ao longo da estrada-parque e apresentará o resultado na próxima postagem! 

 

 

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O impacto da construção de uma nova edificação na qualidade do espaço público

Estamos publicando parecer do professor Douglas Vieira Aguiar sobre mais um corte de árvores a ser realizado em Porto Alegre. Interessante observar o contraponto a argumentos por muito tempo utilizados pela administração pública, como o “aproveitamento da infra-estrutura existente” e a “ajuda aos pobres”. De forma geral, o raciocínio que embasa o parecer é semelhante ao aplicado em cidades de países mais estruturados do que o Brasil, aonde não imperam o “progresso acima de tudo” e o imediatismo. Características que, aliás, trarão um alto custo para a sociedade brasileira.

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Objeto do parecer: Avaliação do impacto de uma edificação a ser construída na rua Avaí nº 100 – área central da cidade de Porto Alegre – sobre a qualidade do espaço público a ela circundante.

Parecer: Produzo esse parecer por solicitação de um conjunto de entidades, associações e organizações não-governamentais que inclui a AGAPAN/Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural e a Associação dos Moradores da Rua 24 de Maio, entidades interessadas na preservação de um grupo de árvores destinado a corte em razão da construção de uma nova edificação a ser localizada na rua Avaí. Tendo examinado o material constante do proc. IC nº006/2013, em andamento no Ministério Público Estadual,  e tendo visitado o local entendo que:

 

  1. A nova edificação impacta seu entorno imediato de diferentes modos, dependendo do ponto de vista que tomarmos como usuários do espaço público. Pretendo, tendo esse aspecto em conta, avaliar no que segue o problema do corte das árvores dentro de um contexto ampliado que compreende a avaliação da totalidade do espaço público a ser afetado pela edificação projetada tendo em conta, naturalmente, as características dessa mesma edificação.   
  2. Desde o ponto de vista da Avenida Loureiro da Silva para onde a edificação volta sua fachada principal o impacto é bastante positivo. Essa avenida é um espaço urbano em formação e a nova edificação contribuirá positivamente para a constituição arquitetônica daquele lugar, pelo porte das edificações projetadas – um edifício de salas comerciais e um edifício de apart-hotel dispostos lado a lado – e também pela vitalidade urbana a ser ali produzida em decorrência da presença dessa nova população de usuários, recém chegados ao local. Portanto, em tese, a chegada desse empreendimento àquela parte da cidade é muito bem vinda.
  3. Ainda desde o ponto de vista da Avenida Loureiro da Silva, a generosa largura reservada à calçada frontal aos novos edifícios evidencia uma preocupação do projeto com a promoção da vida pública urbana e, em especial, com o percurso do pedestre, o que também vejo como bastante positivo.
  4. Já desde o ponto de vista da rua Avaí e portanto, desde o ponto de vista do bairro, o bairro Centro, não se pode dizer o mesmo. Ao contrário, desde o ponto de vista da rua Avaí e do bairro o modo como a nova edificação se apresenta é desastroso. Para ali se volta o bloco de estacionamento do empreendimento, desenvolvido em quatro pavimentos, e que cria no pavimento térreo, no nível da calçada, ao longo de 70 metros, uma situação de fundos, de parede cega que, conforme sabe-se, será, especialmente no período noturno, palco de tudo aquilo de ruim que a vida humana urbana pode oferecer à rua ou seja, camisinha, seringa, cachimbinho de crack, além da função natural de banheiro público a céu aberto. Esse é o cenário antevisto para a rua Avaí ao longo daquele trecho de muros cegos, sem olhos para a calçada. 
  5. A implantação proposta no projeto cria ainda, também no nível do térreo, uma ‘passagem para pedestres’ ligando a rua Avaí à alça de acesso ao viaduto Dona Leopoldina. Vejo também essa situação como desaconselhável. A dita passagem para pedestres, pelo modo como está proposta, é ladeada em toda a sua extensão por paredes cegas, por um lado as paredes cegas do estacionamento projetado e, por outro lado, as paredes cegas laterais da edificação vizinha existente. Portanto o que teremos de fato, ao invés da pretendida ‘passagem para pedestres’, é um fétido beco contendo, novamente, tudo aquilo de ruim que a vida humana urbana pode oferecer à rua, conforme discriminado acima. Sugiro, em nome do bem publico, a eliminação dessa passagem para pedestres no projeto a ser revisado.
  6. O posicionamento do bloco de estacionamentos, voltado para a rua Avaí, acontece à custa do corte de um grupo de árvores, que o acaso urbano fez com que a cidade preservasse até nossos dias. Essa intenção – o pleito do corte dessas árvores – é, a meu parecer, motivo de perplexidade, desde um ponto de vista disciplinar, desde o ponto de vista da arquitetura e do urbanismo. Muitos anos são necessários para que uma árvore cresça. Temos ali uma bela coleção de árvores urbanas – jacarandás, tipuanas, etc – em uma posição privilegiadíssima de interface entre o bairro e uma autopista, a Av. Loureiro. É surpreendente, nesse contexto, que o projeto abra mão desse patrimônio natural na mediação que estabelece com a cidade. Especialmente se considerarmos que o empreendimento vai abrir mão desse imenso patrimônio natural para a construção de um bloco de estacionamentos. Esse grupo de árvores deve, a meu parecer, ser inteiramente preservado.   
  7. Há que ter em conta ainda, na avaliação da solução de estacionamento adotada, que o edifício imediatamente vizinho ao edifício projetado apresenta, de modo exemplar, o posicionamento dos estacionamentos no corpo da edificação, em altura, como um pavimento. Outros edifícios ao longo da Av. Loureiro da Silva adotam essa mesma solução dadas as limitações daquela situação urbana. Não há portanto como justificar o corte das árvores tendo com o argumento da impossibilidade de reposicionamento do estacionamento.
  8. Interessante notar que o desprezo, por parte do projeto, pela rua Avaí/árvores – que são entendidos como situações secundárias, de fundos, subalternas – e a opção pela Av. Loureiro da Silva como frente dos edifícios projetados, fachada principal, é uma decisão de projeto no mínimo polemica, senão criticável, desde o ponto de vista da orientação solar e do ruído a afetar as habitações do apart-hotel e as salas comerciais projetadas.  Apartamentos e salas comerciais estarão voltados para o lado sul, condição extremamente desfavorecida em termos de insolação e do bem estar daí decorrente, especialmente na nossa condição de inverno. Esses mesmos imóveis sofrerão, em paralelo, o nível de ruído e poluição intensos que caracterizam a autopista. Dai resultará, certamente, o fechamento permanente das janelas e o uso permanente do ar condicionado. Tudo na mão contrária do conceito contemporâneo de sustentabilidade. Na mão contrária a fachada de fundos volta-se para o norte, para a rua Avaí e, por ironia, para o grupo de árvores a serem cortadas, que hoje compõem um espaço aberto aquinhoado simultaneamente pelos benefícios da insolação de norte e por uma arborização encantadora ou seja, uma situação absolutamente ideal em termos de qualificação do espaço público. O lado do bairro, da rua Avaí, das árvores, é, afora tudo o mais, também o lado silencioso. Parece ter havido aí, nesse aspecto, por parte do projeto, um desprezo às condições de habitabilidade em favor da conveniência de representação de imagem inerente à visualização do edifício desde a avenida.    
  9. É meu parecer, em conclusão, que, ao invés de desconsiderar ostensivamente a rua Avaí e as árvores existentes no terreno, o projeto deva  ser revisado passando a considerar esses elementos – rua Avaí e grupo de árvores – não mais como entraves a serem superados mas sim como oportunidades arquitetônicas a serem exploradas a seu favor na tarefa de buscar uma articulação proveitosa da edificação projetada com seu entorno imediato, incluído aí o bairro que lhe é limítrofe.

 

Findos os comentários e sugestões, esse é o parecer.

 

Em 30 de abril de 2013

 

 

Prof. Douglas Aguiar

UFRGS Faculdade de Arquitetura

douglasaguiar@ufrgs.br    

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Desenvolvimento social e natalidade

Estamos publicando artigo do médico portoalegrense João Paulo S. Fagundes e que correlaciona duas variáveis intrinsicamente ligadas – desenvolvimento humano e social e índices de natalidade. Movimentos em formação como a #REDE deveriam incluir esse debate na sua agenda.

China, Brasil, Índia e alguns países africanos apresentam altas taxas de natalidade e muitas limitações para oferecer saúde, habitação, educação, segurança, saneamento, etc. Seria este mais um argumento para justificar estas dificuldades?

A revista “The Economist”, avaliou 140 cidades ao redor do mundo para descobrir o lugar que oferece as melhores condições para se viver. Em 2010, a australiana Melbourne liderou o City Livability Ranking, que pertencia a Vancouver, no Canadá. Segundo a avaliação, sete das dez melhores cidades para viver estão localizadas na Austrália e no Canadá, devido às baixas densidade populacional e taxas de criminalidade. Não por acaso o índice de natalidade destes países é semelhante ao da Finlândia.

Em 1970 nós éramos 90 milhões ; agora somos quase 200 milhões. Crescemos tres Argentinas em 40 anos!!! E a Finlândia? Bem a Finlândia neste mesmo período “pulou” de 4.600.000 para 5.200.000 de habitantes. Tivessemos crescido no mesmo ritmo da Finlândia, Portugal, Australia, Canadá, países nórdicos, Reino Unido teríamos entre 113 e 117 milhões de habitantes e certamente melhores condições e fôlego para administrar estes problemas.

Onde estão os quase 90 milhões que nasceram a mais se tivessemos a taxa de natalidade da Finlândia? Uma boa parcela provavelmente em busca de acesso à educação, saúde, habitação, etc… Não tem País que aguente este descontrole de Natalidade: dobramos a nossa população assim como a Índia, a China, etc, os quais também não tem como resolver estes problemas de atitude!

Segundo a ONU a população mundial chegará a 9,2 bilhões de habitantes em 2050. Qual seria o limite harmônico para a população da Terra?

A superfície do Planeta coberta por terra é de aproximadamente 129 milhões de Km2. Pela cifras demográficas do Brasil (20 hab/Km2), consideradas baixas, será que o planeta suportaria 26 bilhões de pessoas? E pelos números da Índia – 328 hab/Km2 – será que com 400 bilhões de seres humanos sobre a Terra poderíamos considerá-la superpovoada?

Para discutir esta questão algumas referências são indispensáveis.

Por “Controle da Natalidade” entende-se uma política de estado através da qual o governo impõe ao cidadão uma forma de controle da população. “Planejamento Familiar” define o direito do cidadão que, livre e conscientemente, faz a opção que melhor lhe aprouver em termos de filhos. Ambas políticas externaram ao longo dos anos preocupação em combater a pobreza. Novos ingredientes se incorporaram aos debates, entre eles o meio ambiente.

No livro “Engano Fatal” o historiador Matthew Connelly conta a historia de como a intervenção do estado no controle da natalidade foi um dos flagelos do século XX sobretudo como forma de imperialismo para controlar as ex-colonias.

Jeffrey Sachs, porta voz da ONU nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, proclama o retorno do controle da natalidade como forma de prevenir o “Aquecimento Global”. Movimentos contrários argumentam o risco que o potencial dito libertador destas campanhas possam novamente estar atrelados a programas autoritários como os da China ou como foi na Índia em épocas passadas para fazerem os pobres pararem de ter filhos. Connelly entretanto adverte que aqueles que defendem o controle da natalidade como solução para problemas ambientais não analisaram esta parte da história. Acrescenta que ao persuadir a população com melhores condições de vida e de conforto passa-se a observar um aumento no consumo, ou seja, nos países desenvolvidos troca-se uma crise populacional por uma de consumo que a reboque provoca um grande problema de saúde por excesso de alimentação.

Os europeus estão demonstrando que as medidas para conter o aumento populacional podem ocorrer desde que se tenha educação. Ao dominar a realidade que os circunda intuíram a importância de um espontâneo controle de natalidade (no caso, planejamento familiar), que desconsidera os incentivos governamentais que destinam, em média, 2% do PIB para ampliar a população que teima em diminuir.

Presente na origem da crise econômico-financeira de 2008, a exclusão social desencadeou o aparecimento de uma “novidade” que atende pelo nome de “bolha”. O fato de existir muita gente, sem recursos, para consumir e pouca gente qualificada para produzir num país rico como os EUA, a “bolha” de 2008 foi a das moradias para atender as necessidades básicas de inclusão dos sem recursos na sociedade de consumo.

E entre os pobres qual é a bolha? A fome!! Alimentos tem, o problema é que estão mal distribuídos. Como alcançá-los aos 854 milhões de pessoas que passam fome por não ter dinheiro (ganham < 1 U$/dia) e outros 2 bilhões de pessoas que, segundo o novo marco de pobreza, ganham < de 2,05 U$/dia.

Na Europa a preocupação é evitar que a população diminua e para tal a meta seria superar a taxa de 2,1 filhos por casal, número considerado necessário para evitar uma redução na população. Aqui no Brasil o objetivo é o contrário: o governo estimula os desfavorecidos a aumentar suas famílias através de “bolsas”família, etc… e ainda nos socorremos de mecanismos ineficazes que constam na nossa Constituição. Está escrito que o planejamento familiar é direito de todo cidadão. E para o exercício desse direito, o estado deve oferecer todos os métodos e técnicas de concepção e de contracepção. Entretanto nem tudo que está na legislação atende a quem mais precisa.

Enquanto fui Gerente Distrital de Saúde pude observar que as comunidades mais vulneráveis, mais pobres, iletradas, desconhecem os direitos que lhes reserva a lei 9.263, de 12 de janeiro de 1996 e, mesmo quando informadas, lhes é quase impossível preencher inacreditáveis requisitos tais como:

1 – observar o prazo mínimo de sessenta dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico, período no qual será propiciado à pessoa interessada acesso a serviço de regulação da fecundidade, incluindo aconselhamento por equipe multidisciplinar, visando desencorajar a esterilização precoce;

2 – na vigência de sociedade conjugal, a esterilização depende do consentimento expresso de ambos os cônjuges. A lei não especifica o que fazer na inexistência do cônjuge, fato muito comum nestas comunidades. E, como sabemos, se não está previsto em lei o mérito já passa a ser discutido.

Só a observância destes dois requisitos já é pedir demais para estas mulheres, geralmente sem companheiros, com filhos de diferentes parceiros, sem recursos e sem tempo para deslocamentos freqüentes e distantes. Não preciso recordar-lhes dos vários estudos que atestam o risco que estas crianças, sem a presença paterna, tem para trilhar os caminhos do crime, das drogas, da violência…

Segundo estatísticas, 15% delas engravidam ainda adolescentes, até como forma de alpinismo social. Engravidam, por exemplo, do traficante da vila que lhes dá uma espécie de proteção e respeitabilidade na comunidade. Elas desconhecem essa legislação e, quando informadas, encontram barreiras que podem ser consideradas desmotivadoras e intransponíveis, como as acima mencionadas!!!

Será que não poderíamos buscar uma alternativa bem brasileira? O “BOLSA ESTERILIZAÇÃO”! Quanto mais jovem a mãe e/ou o pai candidatos ao procedimento ou quanto menor o número de filhos, maior seria o valor e tempo de recebimento. Este incentivo poderia, se bem ajustado, ser mais eficaz para combater a pobreza, diminuir a violência , diminuir o desemprego, permitir o acesso da população à educação, saúde, etc. Consequentemente, não somente pessoas com informação ou condições financeiras teriam acesso ao planejamento familiar!!!

Socorro-me do emblemático depoimento do Dr. Drauzio Varela: “é justo oferecer vasectomia, DIU, laqueadura e vários tipos de pílulas aos que estão bem de vida, enquanto os mais necessitados são condenados aos caprichos da natureza na hora de planejar o tamanho de suas famílias? A irresponsabilidade brasileira diante das mulheres pobres que engravidam por acidente é caso de polícia literalmente. Insisto em dizer que o planejamento familiar no Brasil é inacessível aos que mais necessitam dele. Os casais da classe média e os mais ricos, que podem criar os filhos por conta própria, têm acesso garantido a preservativos de qualidade, pílula, injeções e adesivos anticoncepcionais, DIU, laqueadura, vasectomia e, em caso de falha, ao abortamento; porque, deixando a falsidade de lado, estamos cansados de saber que aborto no Brasil só é proibido para a mulher que não tem dinheiro. A verdade é que, embora a sociedade possa ajudar, nessa área dependemos de políticas públicas, portanto dos políticos, e estes morrem de medo de contrariar a igreja”.

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“É o fenômeno La Niña”

Diz o dito popular que “uma imagem fala por mil palavras”. Assim, resolvemos reproduzir duas charges do brilhante cartunista Iotti, explicando a razão pela qual o Brasil tem cada vez mais problemas com secas e enchentes…

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Seca no RS

Seca no RS

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Desmatamento e Desenvolvimento

O que o Brasil tem a aprender com a história florestal dos países desenvolvidos? Thiago Fonseca Morello responde a esta pergunta em “Informações FIPE” de Outubro de 2011.

1. Introdução

A supressão florestal não foi necessária à consolidação da autonomia econômica de um importante conjunto de países hoje desenvolvidos (Veríssimo; Nussbaum, 2011). Tal fato, exaustivamente documentado pelos estudiosos da “transição florestal”, é ignorado por boa parte da opinião pública brasileira.

“Países desenvolvidos que destruíram suas matas e florestas em nome do bem-estar de sua população cobram agora do Brasil o papel que não desempenharam no passado”, declarou o presidente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (OCESP), em audiência pública referente ao projeto de reforma do Código Florestal.

Em artigo no Estado de São Paulo,a senadora Kátia Abreu escreveu: “Os paradigmas que nos querem impor refletem o remorso, a hipocrisia e, principalmente, o poder econômico dos povos até agora ditos desenvolvidos e que através de milênios de História desconstruíram suas paisagens e não têm mais condições de recompô-las.” (ABREU, 2010)

Procura-se, com o presente texto, refutar a tese de que desmatamento e desenvolvimento foram duas faces de uma mesma moeda na história europeia, norte-americana e da Coreia do Sul. As evidências cruciais são apresentadas na seção seguinte. Há, logo após, uma breve conclusão.

2. A transição florestal

Artigos como os de Mather (1992), Rudel (1998), Rudel et al. (2005), Ewers (2006), Foster e Rosenzweig (2003), Pfaff e Walker (2010), procuram identificar, a partir do exame de dados na escala nacional, mecanismos indutores da “transição florestal”: inflexão na trajetória da área ocupada por florestas, de uma tendência cadente, para uma tendência ascendente.

Mostra-se, por exemplo, que, desde meados do século 19, países como França (Mather et al., 1998), Dinamarca (Mather , 2001), Suíça (Mather , 2001) e Escócia (Rude l et al., 2005) apresentam crescimento em sua área de florestas. A consolidação de uma sociedade industrializada e urbanizada, sustentada por uma economia autônoma, não foi, portanto, nestes Países – como reza o senso comum apontado na introdução – forjada com desmatamento.

O mesmo é observado, no século 20, para países como Estados Unidos (a inflexão data de 1920, Clawson, 1979 e Foster ; Rosenzwe ig, 2003), Inglaterra (Robbins; Fraser , 2003), Alemanha (Plieninger et al., 2012), Índia (Foster ; Rose nzwe ig, 2003), Irlanda (Rude l, et al., 2005) e Coreia do Sul (Rudel et al., 2005 e Bae ET al., 2012).

Já, para o caso do Reino Unido, região em que se deu a gênese do capitalismo, entre 1924 e 1998 a proporção da área coberta por floresta passou de 5,3% para 10,7% (dados oficiais tabulados por Robbins; Fraser , 2003, p. 104). Conforme aponta Pryor (2000), esse avanço emergiu, especificamente para a Inglaterra, de um programa de reflorestamento promovido pelo governo, inclusive com incentivos fiscais.

Os determinantes da transição, identificados pelos pesquisadores, são múltiplos: (i) urbanização e êxodo rural; (ii) intensificação da agropecuária; (iii) substituição da lenha por combustíveis fósseis e da madeira por aço e/ou concreto; (iv) aumento da rentabilidade da produção de matéria-prima florestal (como, p.ex., aumento do consumo de papel); (v) progresso tecnológico da silvicultura; (vi) criação de instituições protetoras; (vii) pressão social conservacionista, entre outros.

Na França, a área coberta por árvores dobrou entre o século 19 e o final do século 20. Tal recomposição se deu tanto a partir da plantação de árvores como por meio da regeneração da floresta nativa. O ano de 1830 foi eleito por Mather et al. (1999) como marco da transição.

Durante o século 19, o uso inconseqüente da floresta foi substituído pelo uso industrial, caracterizado por planejamento da colheita consistente com um suprimento contínuo e sustentável de madeira. O manejo racional, de origem alemã (Mather et al., 1999) foi um fator determinante, na França, da ruptura com a conexão entre desmatamento e desenvolvimento industrial (Mather et al., 1999).

O código florestal de 1827 – o qual teve como precursor um dispositivo promulgado por Colbert em 1669 – pôde atingir o objetivo de contenção da exaustão florestal, exatamente por estender o processo de estabelecimento de uma estrutura de governança excludente para a alocação da terra – o que se deu às custas de camponeses que até então dependeram do sistema comunal para ter acesso à lenha e madeira. Também na Dinamarca a demarcação das terras públicas e privadas, mas, sobretudo, das terras para uso agrícola e para produção de madeira (estas últimas, não necessariamente estatais) foi crucial (Rude l, 2001). A influência da escola alemã de silvicultura também teve, nesse país, papel relevante.

Na Suíça, em 1876, as enchentes motivaram a criação de novos dispositivos legais, regulamentando-se a exploração de florestas e proibindo-a na região dos Alpes. A recuperação florestal foi estimulada. Na Dinamarca, um programa nacional de reflorestamento foi estabelecido em 1805, logrando dobrar a área coberta por árvores na metade do século 20 (Myllyntaus; Mattila, 2002).

Conforme ressalta Rudel (CIFOR), a transição florestal decorre de um conjunto amplo de transformações sociais, a “modernização”, como quer o autor, vivida pela França, Dinamarca e Suíça – o que, em alguma medida, se confunde com o que se entende por desenvolvimento –, um processo não apenas material (tecnologia, produtividade, acumulação de capital), mas também ético (reformas institucionais foram conduzidas com base em uma nova concepção das florestas).

O mesmo se aplica aos demais países nórdicos, Finlândia e Suécia. Conforme se lê em Myllyntaus e Mattila (2002), a emergência da indústria moderna se reverteu em substituição da lenha por combustíveis fósseis e em abandono da agricultura do corte e queima (slash-and-burn agriculture).

Nos Estados Unidos, a primeira região em que se assistiu à contenção do desmatamento foi a da Nova Inglaterra, no nordeste. A expansão do território americano, abrindo novas áreas florestadas e passíveis de ocupação para cultivo, permitiu “exportar” parte da pressão devastadora (Pfaf ; Walker , 2010). A regeneração da cobertura vegetal passou a tomar lugar nas regiões pioneiras de colonização.

A intensificação agropecuária via melhoramento tecnológico, e uma legislação mais restritiva, também foram cruciais para a reversão da tendência declinante das florestas alemãs (Plieninger et al., 2012).

O governo, “produzindo” florestas e criando incentivos ao reflorestamento, foi o principal agente da retomada da cobertura florestal pela Coreia do Sul em meados da década de 1970 (Bae et al., 2012).

A recomposição de áreas originalmente verdes tornou-se prioridade nacional em 1979, intensificando-se a reforma institucional (leis e enforcement) e a mobilização da população. “Cortar árvores é uma ameaça, plantar árvores é um ato de patriotismo” tornou-se palavra de ordem da campanha do Estado (Bae et al., 2012). O resultado: 1,06 milhões de hectares foram plantados com espécies de longa rotação entre 1979 e 1987.

3. Conclusão

Kauppi et al. (2006, apud Bae et al., 2012) demonstraram que apenas o Brasil registrou redução em sua área de florestas entre 1990 e 2005 no grupo de países com PIB per capita superior a US$4.600 (em 2003).

Os fatos trazidos à tona revelam que a consolidação de economias hoje denominadas desenvolvidas se deu com a criação de uma base tecnológica e institucional capaz de engendrar crescimento econômico prescindindo, para isso, da supressão florestal. As florestas se tornaram engrenagem crucial das sociedades que mais avançaram na busca da prosperidade.

A associação entre floresta e atraso, mesmo não sendo proclamada abertamente, está inculcada na opinião pública brasileira. Na história dos países do norte europeu, contudo, as florestas foram símbolos de modernidade. Não apenas no que tange à revolução tecnológica na agropecuária, mas, sobretudo, por representarem uma nova era em que as relações homem-meio ambiente passaram a ser geridas com racionalidade e métodos científicos.

Neste sentido, o caso da Coreia do Sul é exemplar não apenas por mostrar a possibilidade de um país em desenvolvimento conjugar crescimento econômico e valorização de florestas, mas especificamente por conta das restrições impostas pela topografia acidentada e montanhosa às quais o esforço teve de fazer frente. Conforme ressalta Bae et al. (2012), a transição florestal pode ser alcançada em um período aceitável, desde que “a autoridade central apresente objetivos claros e incentivos para criar um amplo apoio do público na condução do esforço de reflorestamento”, o que pode ser estendido para o esforço de contenção do desmatamento.

Esta não é, contudo, a postura assumida pelo Estado brasileiro no presente momento, em que se sinaliza a possibilidade de anistiar todo desmatamento ilegalmente realizado até o ano de 2008.

Referências

ABRAMOVAY, R. Uma conta de trilhões que precisa ser reequacionada. Valor Econômico, São Paulo, 07 de junho de 2011 (Seção “Investimentos”).

ABREU, K. Verdade ambientalista versus fundamentalismos. O Estado de São Paulo, Opinião, 22 de março de 2010.

AYRES, R.; AYRES, E. Crossing the energy divide: Moving from Fossil Fuel Dependence to a Clean-Energy Future. Pearson Education, 2010.

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MATHER, A. S. The Transition from Deforestation to Reforestation in Europe. In ANGELSEN, A. and KAIMOWITZ, D. Agricultural technologies and tropical deforestation, 2001. Based on papers presented at a workshop held in Turrialba, Costa Rica, Mar. 11-13, 1999. Avaiable at: http://www. cifor.org/publications/pdf_files/Books/BAngelsen0101E0. pdf.

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As crises humanitárias na África

A mídia tem veiculado muitas reportagens sobre as “crises da fome” na África. Contudo, nada é dito sobre os fatores ambientais envolvidos nestas crises.

Países desenvolvidos sempre tiveram diversos tipos de programas de “ajuda ao desenvolvimento”, principalmente no continente africano. No caso das regiões semidesérticas, por exemplo, definiu-se que o fator limitante ao “desenvolvimento” é a água. Portanto, estes programas focaram na construção e ampliação de poços artesianos para captar água subterrânea – pensava-se que, com mais água disponível, o povo viveria melhor.

Com mais água disponível, os rebanhos que sustentavam as populações humanas aumentaram e, de fato, mais gente começou a viver mais e melhor. Mas rebanhos também necessitam de alimento, e o consumo da vegetação aumentou para além da capacidade de sustentação do meio, ou seja, para além do que a vegetação crescia naturalmente, uma vez que o fator limitante – a água – não aumentou para a vegetação.

Como resultado, a cobertura vegetal começou a diminuir e o deserto a aumentar; no fim das contas a capacidade do meio para sustentar populações humanas diminuiu, e o resultado são as recorrentes “crises humanitárias”.

O nordeste brasileiro é uma região que também está em visível processo de desertificação. Os sucessivos ciclos econômicos (exploração do pau-brasil e cultura da cana-de-açúcar) ocorreram às custas da cobertura vegetal original, num ambiente já caracterizado por chuvas escassas e irregularmente distribuídas.

Disto concluímos que não há desenvolvimento duradouro se não levarmos em consideração os fatores ambientais envolvidos. Uma lição para o Brasil, que vem perseguindo uma política de desenvolvimento “a qualquer preço”. Cuidado – o preço será mais alto do que imaginamos.

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